A reforma tributária chegou com um calendário concreto e várias obrigações sobrepostas. IBS, CBS, NFS-e padronizada, BP-e com novas regras para cashback — tudo ao mesmo tempo. Para o contador, isso não é apenas uma mudança de alíquota: é uma mudança na estrutura dos dados que a empresa precisa produzir e controlar.
O problema é que muitas empresas ainda chegam a esse momento com processos fragmentados: notas em um sistema, apurações em planilha, histórico de créditos disperso em e-mails. A transição tributária vai expor essas lacunas.
O que muda de fato na prática
O IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) e a CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços) substituem vários tributos hoje dispersos. Na teoria, simplificam. Na prática, exigem que os sistemas fiscais reconheçam novos códigos, novas alíquotas de referência e novas regras de cashback — que já estão sendo regulamentadas pelo TCU.
Paralelamente, a NFS-e nacional está sendo atualizada para se adequar a esse modelo. O BP-e (Bilhete de Passagem Eletrônico) também recebe ajustes. E a Receita Federal atualizou recentemente códigos da EFD-Contribuições, exigindo revisão de parametrizações em ERPs e sistemas contábeis.
A reforma tributária não é um evento pontual de adequação. É um processo contínuo que vai revelar a qualidade (ou a ausência) de dados estruturados dentro das empresas.
Onde a maioria das empresas vai travar
O calendário é claro, mas a preparação não é uniforme. Segundo dados do setor, 45% das notas fiscais emitidas hoje ainda não estão adequadas ao novo modelo da NFS-e, com exigência prevista para começar em agosto de 2026. Além disso, o certificado de segurança do eSocial será atualizado em 24 de junho, e sistemas que não se adequarem vão perder a comunicação com o governo.
- Parametrização dos novos códigos da EFD-Contribuições (150, 151, 152, 153)
- Adequação do sistema de emissão de NFS-e ao padrão nacional
- Atualização do certificado digital integrado ao eSocial (prazo: 24 de junho)
- Mapeamento de créditos de IBS/CBS por operação para não perder ressarcimentos
- Revisão de contratos de serviço com alíquotas que mudarão no período de transição
O papel da tecnologia nessa transição
A tecnologia não vai resolver o que está errado na estrutura de dados da empresa. Mas ela viabiliza o que seria inviável manualmente: rastrear mudanças de alíquota por tipo de operação, consolidar créditos distribuídos em diferentes documentos fiscais e gerar relatórios que o contador precisa para tomar decisões — não apenas para cumprir obrigações acessórias.
Isso não significa trocar o sistema contábil por uma plataforma nova. Significa organizar os dados antes da janela de adequação fechar. Uma empresa com histórico fiscal centralizado e processos documentados vai adaptar parâmetros. Uma empresa com dados espalhados vai refazer todo o levantamento sob pressão de prazo.
O contador como ator estratégico
A reforma tributária é uma das poucas situações em que o contador senta na mesma mesa que o CEO com autoridade para dizer o que precisa ser feito operacionalmente. Isso só acontece quando os dados estão organizados o suficiente para mostrar o impacto real — e não apenas uma estimativa.
Escrituríos contábeis que já operam com dados estruturados dos clientes vão conseguir entregar análises de impacto com antecedĂȘncia. Os que ainda dependem de planilhas e e-mails para consolidar informações vão chegar na janela certos de que estão atrasados.
A reforma tributária, nesse sentido, é menos um problema fiscal e mais um diagnóstico da maturidade operacional de cada empresa. Quem já trabalhou para organizar seus dados vai usar esse momento a favor. Quem adiou vai pagar o preço em retrabalho e risco de penalidade.