Em maio de 2026, a OAB do Pará aplicou sanções disciplinares contra advogadas que usaram inteligência artificial de forma fraudulenta para gerar conteúdo em petições. O caso não é isolado — e serve de aviso prático para todo o setor: a adoção de IA no jurídico chegou a um ponto em que o uso irresponsável tem consequências reais.
A questão não é se os escritórios devem usar IA. A maioria já usa, de alguma forma. A questão é como usar sem comprometer a qualidade do trabalho, a confiança do cliente e a reputação profissional.
O que a IA faz bem no contexto jurídico
Existem tarefas onde a IA agrega valor real e imediato, sem riscos significativos quando aplicada com supervisão adequada:
- Revisão e resumo de documentos extensos — contratos, acórdãos, perícias
- Triagem de processos por urgência, fase processual ou tipo de matéria
- Extração de dados estruturados de documentos não padronizados
- Monitoramento de prazos e alerta automático de vencimentos
- Geração de minutas iniciais com base em modelos validados pelo escritório
Em todos esses casos, o advogado revisa, valida e assina. A IA reduz o tempo de preparação, não substitui o julgamento profissional.
Onde o risco aparece
O problema documentado com mais frequência é a alucinação: modelos de linguagem podem citar jurisprudências inexistentes, atribuir decisões a processos errados ou inventar dados com confiança aparente. Quando esse conteúdo é inserido em petições sem verificação, o resultado é exatamente o que a OAB/PA sancionou em maio de 2026.
IA não sabe o que não sabe. Por isso, toda informação gerada automaticamente precisa ser verificada na fonte antes de entrar em qualquer documento com valor legal.
Além das alucinações, há o risco de confidencialidade. Enviar dados de clientes para ferramentas de IA genéricas sem política de privacidade adequada pode violar o sigilo profissional e a LGPD. Escritórios que usam IA precisam saber exatamente onde os dados são processados e armazenados.
O que definir antes de adotar IA no escritório
Antes de qualquer implementação, vale responder três perguntas objetivas:
- Quem revisa o que a IA produz antes de ir para o cliente ou para o processo?
- Quais tipos de conteúdo a ferramenta pode gerar, e quais estão fora do escopo?
- Os dados dos clientes ficam dentro de ambiente com contrato de processamento adequado?
A perspectiva prática para 2026
O advogado que domina IA como ferramenta de trabalho tem vantagem concreta: processa mais casos com a mesma equipe, reduz tempo em tarefas operacionais e concentra atenção onde o julgamento humano faz diferença — na estratégia, na relação com o cliente e na interpretação de casos ambíguos.
O risco não está em usar IA. Está em usar sem entender os limites da ferramenta e sem definir quem é responsável pelo que é entregue. No jurídico, onde a responsabilidade é explicitamente pessoal e regulada pela OAB, o protocolo não é opcional.